Estado político: suave anarquia.
A WoB (War on Beauty) foi a segunda grande guerra ideológica da humanidade - ou do que veio depois dela. Como a primeira grande guerra ideológica da humanidade, não ousou chamar-se pelo próprio nome: na verdade, não era pelo padrão estético que se lutava. Era pela prevalência de tecnologias. Os seres seriam melhores quanto mais fossem parecidos com humanos (bípedes, cinco sentidos, dedos, consciência, essas coisas) ou quanto melhor se adaptassem a um ambiente (leia-se trabalho) específico? O que era ser melhor? (E justo quando você pensou que a metafísica tinha morrido...)
Chegou-se ao consenso quando todo mundo já tinha alguma tecnologia em seu corpo - nem que fosse orelhas melhores. Algumas consciências, por escolha própria, já não sentiam mais a pulsão ("primária", diriam) sexual. Dentre as que sentiam, por escolha própria ou por falta de divisa, ou era o humano representado por seu aspecto mais falho (celulites viraram uma tara e foram induzidas no genoma de novo) ou máquinas antinômicas.
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1.1.04
10.5.01
41. a garota que se apaixonou por um ângulo
Desde o dia em que M&M vira um senhor bigodudo apoiado no balcão de sua lojinha de tecidos inteligentes, suspiroso, com dois cotovelos gêmeos perfazendo 30o, jamais pôde esquecê-lo. O ângulo. Aferia-os com precisão desde que pusera um optímetro. E apaixonou-se pelo de trinta graus. Dava para entender, disse-lhe o estranho misterioso. Embrenhou por uma comprida explanação matemática, falando a M&M sobre as implicações de sua (dela) personalidade dividida, duas consciências, três personalidades, dois vezes trinta sessenta, três vezes trinta noventa, três vezes dois vezes trinta cento e oitenta. Nada disso a impressionou, tanto que nem lembrou de perguntar a ele como é que sabia de tudo isso sobre ela. Mas foi com ele quando ele pôs sua mão sobre o bar, muito casualmente. Era uma mão de seis dedos finos que dividiam o arco de 180o em cinco partes de 30º. "Eu tenho trinta e três dedos", acrescentou ele, "mas no dia-a-dia só uso doze". Ela não disse nada: pegou na sua mão e foi com ele.
22.6.99
b) Professional dreamers:
O VeriSim foi inicialmente empregado em jogos como Destroyer e Reality (no qual quem morresse de bruços podia testemunhar, enquanto flutuava para longe, os olhares lânguidos do assassino, que baixava as calças do avatar e cuspia, desafivelando-se). Logo as primeiras companhias começaram a notar o potencial do VS para seus institucionais. No início era simples: setor de crianças, mulheres e masculino, todos desfilando numa passarela ideal. Então, um visionário anônimo teve a grande idéia (e a capacidade mental para projetá-la devidamente) de oferecer um coquetel no final do desfile.
“Hmm. E este roxo é de quê?”
“Guarajela.”
“Com licença.”
Acrescentado um toilette (nem todos os sabores azuis e roxos, óbvio código para “não existe na natureza”, agradavam sempre a todos), os coquetéis foram um retumbante sucesso. Não demorou nada até que conseguissem adicionar perfumes e algumas formas de tato, como vento de variadas intensidades. Mestre Ishii Tooru era capaz de fazer com que fragrâncias fossem trazidas pelo vento diretamente aos narizes - e deixar o freguês procurando pela fonte daquele odor por entre o bosque fechado e frio.
É, porém, a dona Berenice dos Santos (a.k.a. Nice da Feijoada) a quem mais devemos a atual perfeição do VS. Contratada pelo cheirinho apurado de sua imaginação de cozinheira, pediu timidamente certo dia para participar da mentalização de movimentos. Assim, timidamente, ela introduziu o vôo, o teletransporte e milhares de outros transportes, inclusive os impossíveis, além de aperfeiçoar o gosto do chocolate quente que nunca ultrapassara o passável.
A tendência atual era mesclar locomoção variada a emoções fortes. Sólidas paredes a atravessar e tempestades de areia se aproximando eram prelúdio à apresentação dos produtos. O cliente se tornava especialmente receptivo.
“Hmm. E este roxo é de quê?”
“Guarajela.”
“Com licença.”
Acrescentado um toilette (nem todos os sabores azuis e roxos, óbvio código para “não existe na natureza”, agradavam sempre a todos), os coquetéis foram um retumbante sucesso. Não demorou nada até que conseguissem adicionar perfumes e algumas formas de tato, como vento de variadas intensidades. Mestre Ishii Tooru era capaz de fazer com que fragrâncias fossem trazidas pelo vento diretamente aos narizes - e deixar o freguês procurando pela fonte daquele odor por entre o bosque fechado e frio.
É, porém, a dona Berenice dos Santos (a.k.a. Nice da Feijoada) a quem mais devemos a atual perfeição do VS. Contratada pelo cheirinho apurado de sua imaginação de cozinheira, pediu timidamente certo dia para participar da mentalização de movimentos. Assim, timidamente, ela introduziu o vôo, o teletransporte e milhares de outros transportes, inclusive os impossíveis, além de aperfeiçoar o gosto do chocolate quente que nunca ultrapassara o passável.
A tendência atual era mesclar locomoção variada a emoções fortes. Sólidas paredes a atravessar e tempestades de areia se aproximando eram prelúdio à apresentação dos produtos. O cliente se tornava especialmente receptivo.
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